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Sérgio da Costa Ramos
02 de junho - Crônicas e outras histórias
» 02/06/2010 - 16:02h

Bom projeto

Revitalização do Centro histórico, com visão privilegiada do velho casario da Rua Francisco Tolentino (Cais Frederico Rolla), um largo no subsolo, dotado de um shopping popular e estacionamento. É boa a idéia de dar forma, lógica urbana e apego às tradições num espaço por onde transitam mais de 250 mil pessoas por dia. O arquiteto Héctor Vigliecca venceu o concurso de concepção do novo Largo do Mercado, embora o mar continue divorciado do Centro da cidade. Perdeu-se, há 15 anos, com o projeto de André Schmidt, a oportunidade de trazer um braço de mar para dentro do aterro — e, assim, devolver ao centro um “espelho” de sua antiga aparência. O novo projeto é um bom consolo, pois privilegia o homem.


Estrada sem ferro

O projeto original da Ponte Hercílio Luz previa a passagem de uma estrada de ferro, com o modal ferroviário ligando a Ilha à malha da Estrada de Ferro Dona Tereza Cristina, no Litoral Sul. No cálculo da estrutura a sobrecarga, foi prevista para o meio da ponte, entre as duas pistas para veículos motorizados. Os trilhos chegaram a ser comprados e, durante anos, ficaram empilhados debaixo da ponte, nos lados insular e continental.

Aos poucos, foram desaparecendo. Roubados. No lugar do trem, a cidade se habituou com as carroças. E não se falou mais em estrada de ferro…


Balão, São João

“Olha o balão!”

O grito nascia no começo do mês das festas ditas “juninas”, São Pedro e São João. E continuava num séquito de rua, multidões seguindo a grande lanterna voadora. Tanto quanto no Nordeste, a festa dos apóstolos era a grande diversão do meio do ano — tão animada quanto um Carnaval, só que no frio. Bandeirinhas, arraiais, fogos de artifício, “casamentos na roça”, fogueiras ardendo enquanto durasse a festa. E balões. Os que eram lançados e os que caiam no quintal do vizinho. “Balão!” O vocativo logo se transformava num alerta coletivo, no rugir de uma turba que ia se formando, na rua, na “cola” de uma dessas lanternas cadentes.

São João era na casa do tio Gastão e da tia Landa. Festa animada. Com as primas. E — ai! — as primas das primas… Churrasco. pinhão. batata-doce. Aipim com melado. Rapadura. Canjica. Uma sopa de milho branco, cozido, à qual se misturava leite de coco e de vaca, mais açúcar, cravo e canela.

Guri macho detestava canjica, flertava com o quentão, tomado à sorrelfa — pois garotos não podiam beber álcool. Quentão: cachaça, açúcar, canela, casca de laranja, cravo e gengibre. Servido em canequinhas, esquentava até a “alma”, espalhando um grande número de “bebuns” por metro quadrado.

A grande atração, hoje proibida pelo bom senso, era o balão. Artefato muito mais antigo do que a era cristã, feito de papel de seda fino, repartido em gomos variados, inflado pelo “bafo” aquecido de buchas acesas em bocas de arame. Tudo aglutinado por um “grude” caseiro à base de farinha de mandioca. Seu motor inflamava-se por essa “bucha” — trapos que revestiam pedra do breu de alcatrão, espécie de “betume” ou resina que garantia o fogo crepitante dentro do grande losango colorido.

Quando acabava o breu, a grande lanterna iniciava o bruxuleante passeio de uma aterrissagem típica de comédia pastelão. Ora o losango iluminado parecia cair num gramado virgem de plantas, ora ganhava o último e espasmódico alento, descaindo sobre um galinheiro, uma “casinha” sanitária ou um pé de mamona, com seus espinhos pontiagudos.

O medo de grandes incêndios não habitava o imaginário de adultos e crianças. Esse perigo não frequentava o ânimo festivo das curtições juninas. Parecia que, por ser a cidade pequena, cenário perfeito para um quadro naïf — balões e bandeirinhas dentadas — a dupla São João e São Pedro haveria de garantir a felicidade de todos. Nem mesmo o Corpo de Bombeiros emitia “alertas”. Uma vez ou outra, os soldados do fogo atendiam chamados. Nada de muito grave. Até parecia que os balões “escolhiam” onde cair, sem produzir muito dano.

Entre os marmanjos, vigorava uma “lei não escrita”: quem chegar primeiro na “bucha” e conseguir apagar o fogo “leva” o balão. Teria, então, o direito de dobrá-lo com cuidado, apossando-se do cobiçado troféu. Mandava a praxe que o novo dono marcasse hora e data para nova decolagem, motivo para renovada excitação, nova festa, novos pregões. Balão que não subisse, que dobrasse numa lufada de vento ou exibisse um voo capenga, “de galinha”, acabava insultado por um ultraje do universo adulto:

— Teu balão broxou!

Daí pra “nome de mãe” era um pulo. Ou um tapa. A noite acabava em mercúrio cromo, desinfetando as feridas da grande batalha. O pai prometia punições domésticas, como “ficar sem mesada no domingo”. Ou não participar do lançamento do balão de mais de 200 gomos no “São João” organizado pela vizinhança. Castigo revogado na véspera, por instância da “avó”:

— Deixa o menino “vadiá” um pouco…

Fonte: Clic RBS

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