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Sérgio da Costa Ramos
Crônicas e outras histórias
» 26/05/2010 - 14:11h

Briga pela vista

É de foice a briga que prometem travar na Justiça 15 sócios da Sociedade Balneário Daniela contra a pretensão de outros 44 membros da associação civil, proprietária da remanescente única grande área — 5.736 metros quadrados — de frente para o mar. A entidade do Norte da Ilha recebeu a área, doada pela pioneira Imobiliária Lunar, para uso exclusivamente comunitário, como referendou o poder público municipal através da lei 1318/75. Os demandantes querem evitar o “esbulho” em benefício de 44 associados, que votaram pela alienação do patrimônio societário, seduzidos pela oferta de R$ 5,5 milhões. Pretendem “rachar” a receita e extinguir a sociedade.


Falta sol no mercado

Sim, falta sol no mercado da Natureza. A “oferta” de sol anda escassa na nova e caótica Bolsa do clima. Se a gente deixa de olhar pela janela no instante em que o astro nos visita — zás! — ele desaparece. Nunca se viu um sol tão efêmero e tão meteórico. Não se fala mais em “sol do meio-dia”. Mas de “meio dia de sol em uma semana” — ou ainda menos.

Antigamente, o Sol era mais constante. Metia-se até nas frases mais corriqueiras do dia a dia. “Trabalhar de sol a sol”, por exemplo, era não ter descanso, viver de “hora extra”, trabalhar, em todo caso, bem mais do que um deputado — que só trabalha dois dias por semana.

“O sol nasce para todos” designava um regime de democracia social, muito raro entre os homens. “Querer tapar o sol com a peneira” era pretender esconder uma verdade publicamente conhecida por todos. O sol era uma invenção tão boa que até assustava. Além de aquecer a Terra, embelezava a vida.

Não seria propaganda de algum partido político? De algum sabão em pó? Promessa de algum cabo eleitoral às vésperas das eleições?

Até agora, meio-dia de uma quarta-feira em fins de maio, ele brinca de “esconde-esconde”. Até parece que o Sol é apenas uma figura de retórica, pura ficção. E olha que, como dizem os “antigos”, esse tal de sol sempre existiu. O primeiro a notá-lo foi um casal do paleolítico, que saía para sua primeira voltinha fora das cavernas.

— Olha que legal! — disse o homem — É o meu “retrato” no chão!

Foi quando notaram a primeira “sombra”. A mulher olhou com espanto. Riu e brincou como uma criança. Ficou observando a projeção do companheiro refletida na terra, perpendicular ao chão.

O homem imitou um aribu, juntando as duas mãos e dando a elas o movimento de asas.

— Cuidado aí, senão eu te bico!

Ficaram brincando assim alguns minutos, os Flintstones em volta também se divertiram com a alegoria, alguns até imitando o gesto de dar “vida” às sombras.

— Para ter sombra… — descobriu a mulher — … é preciso que haja sol!

— Sol?

— É. Essa fogueirona aí em cima, aquecendo a gente.

Os dois se deram as mãos. Sorriram. Beijaram-se. Sentiram-se vivos. Suas sombras se uniram no chão, eram a prova móvel da ressurreição do sol e do afeto entre os viventes.

— O que é mesmo o Sol? — quis saber o homem, ainda brincando com a projeção da própria sombra.

— Somos nós aqui, brincando de “sombra”…

A mulher ainda não tinha plena certeza. Mas o sol lhe parecia uma fogueira vital. Em algumas tribos sempre foi uma espécie de Deus. Sem esse “aquecedor”, o ser humano congelaria. O problema é que, às vezes, uma cortina de nuvens se interpunha entre o Sol e a Humanidade.

O Sol constitui apenas uma “estrela de quinta grandeza” na ordem universal, embora concentre toda a luz necessária à vida em nossa galáxia. O denso cortinado de nuvens que hoje vive bloqueando os seus raios é uma má notícia do universo estelar. Talvez seja uma “sequela” irremediável da lixeira que o homem instalou em torno de si, expelindo gases venenosos.

“Ele”, agora, só dá expediente de meio dia — e olhe lá. Em todo caso, seja bem-vindo — velho farol do universo!

O bom humor que o Sol irradia é tão vital quanto o inalar do oxigênio e o bombear de ar fresco para os pulmões.

O problema dos dias de hoje — com o mau humor do clima — é que o universo, à semelhança do homem, está se transformando numa entidade “ficha suja”.

Com a palavra o Manezinho da Ilha e seu apelo restaurador da antiga paisagem dos meses de maio límpidos e imaculados:

— O Sinhori! Vamo acabá com esses “carnegão de nuve” todo dia aí em cima de nossas cabeças?!

Fonte: Clic RBS

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