OUTROS COLUNISTAS
A arte venceu
Encantado com o futebol-arte do Santos, o escritor Deonísio da Silva (Avante Soldados, Para Trás!) hasteou uma louvação ao estilo que é antítese do Dunga. Escreveu: “Dá vontade de organizar um abaixo-assinado nacional e pedir ao Dunga e sequazes que deixem o Santos representar o Brasil na Copa do Mundo. Não foram somente os gols que foram lindos! Foi todo o jogo! Não sou santista. Apenas alguém que acredita que o futebol brasileiro pode se redimir desses técnicos que o deixaram tão horroroso. Os que querem ganhar títulos na base da indigência criativa, impedindo que o outro time jogue para, no momento fortuito, fazer um golzinho miserável”…
Deonísio, onde eu assino?
Melhor fazer
Cansadas de esperar por investimentos do Estado em infraestrutura (que, no Brasil, não acontecem há 50 anos), muitas empresas resolveram assumir obras que interferem diretamente no custo final de seus produtos. Portos, estradas, trilhos, miniusinas hidrelétricas saem do papel para o mundo real sem que o Estado compareça, a não ser para cobrar impostos. Entre essas empresas, Vale, Gerdau, Braskem, Votorantim, CSN e Usiminas. Aprenderam que o Estado é como técnico de futebol: se não atrapalhar, já ajuda.
Canalhocracia
Até os “Fichas Sujas” votaram na lei da “Ficha Limpa”, não sem antes desovar no texto o verdadeiro ovo da serpente. Em trecho crucial do diploma, os senadores alteraram o tempo verbal, para tornar a lei inócua. Onde se lia “os que tenham sido condenados”, o texto aprovado rescreveu: “os que forem condenados”… Quer dizer: a lei só vale para condenações futuras. “Juristas-parlamentares” argumentaram com o princípio universal segundo o qual a lei não pode retroagir para prejudicar. Mas se só os “Fichas Sujas” seriam prejudicados, qual o problema?
Chuva já não é amiga
Há baixios na Grande Florianópolis que já se acostumaram a ser as vítimas preferenciais de todas as tragédias — como as da Ilha e da Biguaçu continental, na madrugada da última terça-feira.
Choveu, choveu! Biguaçu encheu! era o monocórdico estribilho de uma marchinha de Carnaval dos anos 1960, chorando uma dessas desgraças aquáticas, que reaparecem de tempos em tempos.
Nesses baixios há catarinenses que já merecem a remissão de todos os seus pecados, presentes e futuros. Um povo castigado, que se vê injustamente perseguido por esse carma “encharcado” — e que vive chorando pela perda de sua modesta mobília e do eletrodoméstico comprado à prestação, com tanto sacrifício.
Chega a ser comovente o estoicismo desses resistentes, que se opõem à saga dos retirantes. Eles não desertam: eles ficam.
O povo dos baixios não se retira: permanece. Resiste, em meio a dor.
Associada como uma amiga e benfeitora das culturas agrárias, a chuva era cortejada como “a substância do céu e o orvalho das nuvens”. Por ela, o homem fez promessas e coreografou danças ao longo dos séculos.
Hoje, com uma natureza cancerosa, carbonizada pelos gases tóxicos que sobem pela atmosfera, desmatada e desfigurada pelo homem e pela sua cupidez, a Terra recebe a ex-amiga chuva, hoje transformada em sinônimo de tragédia. A natureza anda doente e a terra encharcada é o seu leito de dor.
Há um sol esquivo espiando a Ilha por uma janela entre os morros. A montanha parece se desfazer aos poucos de sua camisola de névoa, como se a Mãe Terra estivesse prestes a obter alta na UTI do hospital universal.
Mas o sol carece de forças para permanecer. Não demora muito e veste um lúgubre “chambre” cinza — e a intempérie volta a regar o chão e seus lençóis empapados d’água, como um câncer que se reproduz de célula em célula até matar a Terra e os que sobre ela vivem.
A Natureza não se conforma — ela se vinga, como assegura a tradição meteorológica do mané: mar de rebojo, três dias de lestada e nojo!
Ou como escreve Othon D’Eça em seu telúrico Vindita Braba, pela boca do manezinho Miguelinho da Damásia:
Vieram “chuveiros” de vento suli e de lestada. O soli passou digeirinho como quem vai de atraso pra novena…
O sol brilhou timidamente, ontem, pelas frestas das janelas da Ilha — e reacendeu as esperanças dos que sofrem com as enchentes e cujo destino tem sido chorar perdas humanas e materiais desde novembro de 2008.
Há “veteranos” nessas enchentes que castigam o Estado e a Ilha-Capital. O “Triângulo das Águas”, no Vale do Itajaí, mantém as duas margens do grande rio sob constante aflição. E, na Grande Florianópolis, há “baixios” que já se acostumaram a figurar em todas as tragédias — como os da Costeira, na Ilha — e Palhoça e Biguaçu, no Continente.
Ainda bem que, desta vez, não morreu ninguém, a não ser a esperança de que, um dia, o homem terá pena do homem.
Fonte: Clic RBS