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Sérgio da Costa Ramos
Os pombeiros e os “contra”
» 11/05/2010 - 15:43h

Sempre que uma melhoria é proposta à opinião da cidade, em nome do progresso, já é proverbial a resistência de um grupo de cabeçudos, que defendem o atraso, a treva, a inércia.

Pergunta-se de que raízes se nutriram esses arautos do regresso. E a resposta talvez esteja na grande confusão armada em Desterro, lá por 1838, para a remoção das barraquinhas ancoradas junto à praia, no sopé da Praça da Matriz, atual Praça XV, no tempo em que o Largo se prestava para o comércio de carnes, verduras, aves e animais.

Ali se estabeleceram as “quitandeiras”, mais as bancas de peixe, no que era um mercado a céu aberto. A higiene era sofrível e se tornou ainda pior quando a esses “informais” se juntaram oportunistas de toda sorte. Biscateiros, contrabandistas, proxenetas, golpistas, engolidores de fogo. O governo ajudara peixeiros e quitandeiras, construindo barraquinhas “permanentes” — mediante o pagamento de uma taxa. Alguns desses barracos acabaram se transformando em alcovas. Em meio a panelas e balaios, os cubículos serviam, à noite, para encontros furtivos, cujos “sons” resfolegantes deixavam poucas dúvidas quanto à sua natureza “erótico-libidinosa”.

À intenção de limpar a Praça opuseram-se os cabeçudos — inaugurando, talvez, a teimosia dos seus sucessores, hoje conhecidos como “os Contra”. Alegavam a tradição, o direito adquirido das quitandeiras, o usucapião dos peixeiros, a natureza “popular” do feirão — como se a construção de um novo e ordenado mercado se destinasse apenas à elite.

O historiador Oswaldo Cabral fotografou em sua Memória o nascimento daqueles “Contra”:

Já naquele tempo havia os zelosos defensores do “patrimônio nacional”, que tinham sempre ao alcance uma disposição, uma lei, uma portaria, um alvará, uma tradição, um empecilho, afinal, que contrariava qualquer projeto de modernização da malfadada vila.

Em 1845, o presidente da Província, Antero José Ferreira de Brito, conseguiu remover aquela favela horizontal por um “nobre” motivo. Preservar o olfato imperial de D. Pedro II, que anunciava sua primeira visita a Desterro, acompanhado da imperatriz Tereza Cristina. Mal transcorrida a visita real, voltaram os barraqueiros a postular a praça da Matriz como seu endereço comercial, enquanto organizam a resistência “contra” a construção de um Mercado Público organizado e asseado.

Nasciam, assim, os primeiros partidos “espontâneos”, os Pombeiros contra os Mercadistas.

Jerônimo Coelho, mercadista, favorável à ordem de um comércio legalizado, contra a bagunça das “casinhas”, perdeu o seu mandato de deputado federal por causa daquela posição assumida.

O governador interveio e, por fim, decidiu: construiria o mercado. Os Pombeiros, contudo, exigiram, em troca, que o estabelecimento se situasse às margens da praia, onde hoje se instala o castelinho da Casan. Vitória de Pirro: o novo Mercado, construído em 1851, acabou demolido 45 anos depois, tendo vida efêmera, para que afinal surgisse o atual Mercado, ao lado do Largo da Alfândega.

Com outro nome, os Pombeiros ainda estão por aí, atrapalhando tudo o que tiver cara de novidade ou de progresso.

Fonte: Clic RBS

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