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Sérgio da Costa Ramos
Sérgio da Costa Ramos - 30/04
» 30/04/2010 - 15:53h

Inaptidão


O que faz um parlamentar votar Medidas Provisórias que sabe inconstitucionais? Ou que ferem a Lei de Responsabilidade Fiscal ou a Lei Eleitoral? Ou, por outra: o que faz um governo inepto remeter à Assembleia um balaio de MPs com aumentos díspares ou injustos, contemplando apenas uma fração do funcionalismo e ignorando os que mantinham justa expectativa de aumento? Afinal, em quase oito anos, nenhuma majoração salarial digna foi concedida aos funcionários. O que faz um partido político (DEM, PMDB, PSDB) integrar uma tríplice aliança só para desfrute dos cargos de mando e seus orçamentos? Na hora de votar, o “governo” vota com a oposição…

Em Santa Catarina, como no Brasil, o povo sofre com uma classe política abaixo de qualquer linha tolerável de inaptidão.


Filme de terror


Liminar concedida pelo juiz Francisco de Oliveira Neto determinou a interdição parcial do Centro Educacional São Lucas, em São José, um desses depósitos de seres humanos que pretendem “ressocializar” jovens infratores. A medida, acolhendo ação civil pública do MP catarinense, dá ao Estado o prazo de 180 dias para re-humanizar o internato de menores. O ambiente era de horror: rede hidráulica e elétrica destruídas, sanitários entupidos, lixo acumulado e até — pasmem — ossos de um cachorro insepulto ornamentando a área externa de um auditório. E o que acontece com quem deixa a situação chegar a este ponto?


Mercozero


Como definir a atual situação do Mercosul, a não ser como “uma farsa”, admitida pelo candidato José Serra? O chanceler argentino Jorge Taiana reagiu, justificando o injustificável: um ambiente onde imperam sobretaxas “compensatórias” e deslavado protecionismo. O Mercosul não é área de livre comércio, muito menos união aduaneira. O que é, então? Nada, apenas um estorvo para o Brasil celebrar, isoladamente, acordos de livre comércio com outros mercados, sempre barrados pelos hermanos.


Tudo de novo

A Europa está em crise, países reunidos sob a humilhante alcunha de “PIGS” — Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha — estão em vias de um calote no pagamento de seus títulos, um novo “tsunami” financeiro parece se acumular no telhado da rica comunidade europeia. Logo os tesouros nacionais começarão a proteger os bancos do setor privado — para que não aconteça o tal de “choque sistêmico”, ou falências em efeito dominó…

Já se sabe quem vai pagar esta conta. É a classe média dos países em desenvolvimento, os únicos que crescem de forma sustentada. O efeito colateral todos sabemos qual é: menos exportações, menos empregos, mais produtos circulando no mercado interno, mais recessão e — apesar dos juros mais altos e do “desaquecimento” — alguma inflação.

O paradoxo, no Brasil, é o seguinte: nunca os bancos lucraram tanto em tempos de crise. Junto com resultados que refletem lucros obscenos — algo em torno de 1/3 (30%) do patrimônio líquido — os banqueiros também anunciaram, talvez para justificar os altos spreads (taxas de risco): “Aumentou entre os brasileiros a apresentação de cheques sem fundo”…

Outra contradição, que só encontra paralelo naquela conhecida máxima do general-presidente Médici, no auge da ditadura:

— A economia vai bem, mas o povo vai mal…

Só os bancos vão bem. Desde os tempos dos Argentari — os primeiros banqueiros privados do Império Romano (não confundir com os argentinos) — passando pelos bancos mercantis de Veneza e Constantinopla, na Renascença, até os modernos estabelecimentos bancários dos dias de hoje, nunca se viu lucros tão fáceis ao custo de quase nenhum esforço.

Com o governo pagando juros leoninos para rolar sua dívida mobiliária, os bancos brasileiros nem precisam trabalhar: ganham dormindo.

Os países atravessam choques econômicos, crises mundiais, tormentas e recessões, mas o lucro dos bancos, esse, é sagrado. Talvez porque conheçam o segredo de uma “alquimia” que a tudo transforma em ouro. Seus spreads, aquela “diferença” entre a remuneração do que pagam pelo dinheiro do investidor e a taxa de juros que impõem aos seus tomadores de empréstimos, é um recorde planetário e universal. Entre os seus tomadores, claro, está o governo.

Os bancos ganham sempre, faça o “mau tempo” que fizer. O dólar subiu? Os bancos lucram porque já estão abarrotados de verdinhas, um “seguro” (hedge) contra desestabilizações. O dólar caiu? Os bancos também ganham, pois ficam mais ricos em reais. A inflação subiu? O banco ganha, porque o governo é obrigado a aumentar a taxa de juros. A inflação caiu? O banco também ganha, porque a economia é relançada, os negócios fluem, os investimentos florescem, a roda da fortuna cumpre o seu destino.

Tão lucrativo é o negócio bancário que, no Brasil, essas casas do dinheiro raramente vão à falência. Quando vão, é porque o dono-controlador “descontrolou-se” e botou a mão no baleiro. Aí, para não ocorrer um “choque sistêmico”, vem o governo e faz um Proer…

Já imaginou o leitor deixar de pagar uma conta particular — luz, água ou telefone, por exemplo — só pra ver o que acontece?

Teríamos o direito de apelar para o Banco Central, alegando a falência pessoal de toda a família, o temido efeito dominó?

No mundo inteiro está em quase desuso a utilização do talão de cheques. Só o brasileiro é que ainda passa muito cheque — entre eles, o famoso “voador”. Talvez seja a sua maneira de declarar-se em estado falimentar e pedir um socorro que, ele sabe, não virá — com o cheque dito “nobre” cobrando algo entre 8% a 12% ao mês.

Nesse paraíso da agiotagem, enquanto o lucro dos bancos alcança as alturas, o brasileiro aprende a voar.

Cada cheque é um planador.

Fonte: Clic RBS / DC

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